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O “Juridiquês” e o interesse do representado: o que vem primeiro?

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“Data máxima vênia Senhor doutor Jurisconsulto, tenho aplicado amiúde o vernáculo de forma escorreita! Peço que se furte de repreender-me por sua insapiência.”

 

A frase acima demonstra a imagem atual que a maioria dos clientes e usuários da justiça têm dos operadores do direito no país.

 

Pra quem descobriu o significado, esta frase expõe um sentimento de superioridade por parte do emissor, ao mesmo tempo que um intuito de evitar que todos os interlocutores entendam o que foi dito.

 

Provavelmente a grande maioria dos leitores deste artigo terá que consultar um dicionário para compreender adequadamente a frase acima.

 

Algumas palavras sequer serão encontradas.

 

Óbvio que tal linguagem não deve ser aplicada indistintamente e por isso decidi abordar este assunto.

 

Da mesma forma, a falta de observância da língua culta em locais adequados pode soar como desrespeito às instituições e tornar a comunicação inadequada.

 

Ocorre que o advogado tem diante de si, na maioria das vezes, um cliente ou um colega de trabalho que não costuma se comunicar cotidianamente assim e certamente terá dificuldade em fechar o elo da comunicação.

 

Revela-se a necessidade de ser aplicada a comunicação adequada ao ambiente e às pessoas com quem se comunica.

 

Não se trata de prejulgar a capacidade do interlocutor ou tampouco menosprezá-lo, mas sim de buscar da melhor forma o objetivo: se comunicar.

 

Suponhamos que o advogado, ao explicar ao seu cliente como ocorreu a morte de seu parente diga: “caro cliente, ao ser abordado pelo esbirro, o seu consanguíneo foi surpreendido e empreendeu fuga em desabalada carreira pelo meio fio, desta feita foi alvejado”.

 

Parece inadequado e certamente não favorece a comunicação com o cliente.

 

Pois então: por diversos motivos, o advogado é incentivado e doutrinado desde o início de sua formação a utilizar linguajar rebuscado.

 

Inicialmente, somos instigados a parecermos superiores aos demais pela linguagem que aplicamos, o que faz com que a palavra do advogado seja respeitada como se lei fosse, mas ao mesmo tempo gera uma percepção generalizada de que todo advogado é arrogante e prepotente.

 

É como se a linguagem nos tribunais fosse limitada à compreensão apenas de alguns, como uma repetição da proibição de livros para a população na idade média, mas de uma forma diferente: Aliando a linguagem culta à baixa instrução da população de modo a tornar os assuntos do direito coisa para poucos.

 

Quando digo baixa instrução da população, não me refiro a analfabetos apenas.

 

Lembro-me de uma situação em que uma querida amiga me procurou dizendo que estava assistindo à sessão plenária do STF na tv justiça e, indignada, não sabia como era possível estar há 10 minutos vendo alguém falar português e não ter entendido sequer o contexto da fala.

 

Alguns dos leitores podem estar pensando que se trata de uma pessoa analfabeta, pois eu respondo que não, pois trata-se de uma pessoa muito bem instruída, com ensino superior completo e pós-graduação em sua área.

 

Apenas não se trata de uma pessoa ligada ao direito.

 

Um segundo caso ocorreu com um familiar que me procurou para que eu explicasse uma comunicação que havia recebido de um colega advogado que o representava em determinada demanda.

 

Novamente trata-se de pessoa muito bem instruída.

 

Tais situações me fizeram refletir sobre qual advogado eu gostaria de ser: o advogado que parece superior e arrogante, ou o advogado que se comunica com seu cliente e constrói em conjunto com seu representado a solução para sua demanda.

 

A decisão foi fácil.

 

Nos tornamos advogados para atender a uma função primordial no estado democrático de direito: Defender o indivíduo da força do estado ou pedir ao estado que que faça valer a lei.

 

Pois então que cumpramos nossa missão.

 

Não há dúvida que o interesse do representado deve balizar nossas ações e qualquer que seja o motivo que nos leva a utilizar linguagem complicada, que a guardemos para os tribunais.   

 

 

por Fabio Nery, advogado, OAB/SP nº 351539.

www.fnery.adv.br

f.nery@adv.oabsp.org.br